HAROLDO MURÁ HAYGERT — O HOMEM QUE ESCUTAVA O QUE NINGUÉM DIZIA
Alguns registram nomes. Outros, datas.
Haroldo Murá registrava presenças.
Seu papel nunca foi apenas escrever. Era revelar o que pulsa por trás do que se mostra. Traduzir o que ecoa no silêncio dos outros — o que vibra no gesto contido, no olhar suspenso, na frase que termina antes do ponto final.
Por trás de cada texto, havia uma dança sutil entre o que podia ser dito e o que só podia ser sentido.
Haroldo escrevia com um tipo de escuta que não se aprende em redações, nem em salas de aula: ele escutava o invisível.
Sua linguagem era atmosfera. Sua palavra era abrigo.
Oferecia espaço para que as pessoas existissem por inteiro, sem precisar pedir licença para serem quem eram.
Ele não exaltava o sucesso. Ele iluminava a travessia.
Seus livros são mapas emocionais — bússolas para quem deseja encontrar a dignidade humana nos detalhes esquecidos.
Hoje, celebramos esse homem que escreveu como quem acolhe, que transformou palavras em templos e perfis em retratos da alma.
E faço isso também com afeto e respeito por sua família.
Por Fábio Leite Haygert, meu irmão, que carrega no nome e no olhar essa herança rara, e por Isabelle Haygert, minha afilhada, que sabe que teve um avô que ensinou o Paraná a se escutar — e a se lembrar de quem é.
Haroldo Murá não se foi.
Ele apenas retornou ao lugar de onde sempre escreveu:
o invisível que sustenta tudo.
Haroldo Murá não nasceu no Paraná, mas soube pertencê-lo como poucos.
Oriundo do Rio Grande do Sul, aportou neste Estado não como visitante, mas como alguém que, antes de colocar os pés, já havia colocado a alma.
Em vez de buscar os holofotes da vaidade, ele acendeu pequenas luzes nos bastidores da história. Com a precisão de quem conhece o invisível e a doçura de quem respeita o tempo das pessoas, Murá não apenas registrava trajetórias — ele devolvia sentido a elas. Revelava. Dignificava. Curava.
A cada perfil que escrevia, não entregava um texto — entregava um espelho.
E ali, naquele reflexo escrito com tanto cuidado, muitos se enxergavam pela primeira vez.
Seu olhar fazia nascer algo novo em quem era visto. Sua escuta silenciosa inspirava uma postura mais consciente em quem exercia o poder. Haroldo não premiava biografias — ele convocava o melhor de cada um.
Sua obra, Vozes do Paraná, é uma das mais belas traduções do pertencimento.
Transformou nomes em legados. Construiu pontes entre o público e o íntimo.
E deixou impresso, em papel e memória, o compromisso de que toda história merece ser olhada com verdade e delicadeza.
Haroldo partiu, mas sua voz permanece.
Sussurrando entre páginas, entre nomes, entre gestos.
Porque quem soube escutar como ele, jamais será esquecido.
Matéria produzida por Diane Leite
Nesta matéria em específico, carrego um tom mais emocional, por se tratar de uma homenagem ao pai de Fábio Leite Haygert, meu irmão, e ao amado avô — chamado por ela carinhosamente de Opa — da minha sobrinha e afilhada Isabelle Haygert.
Jornalista, colunista deste jornal eletrônico e apresentadora do programa Brasil Etc & Tal – exibido todos os sábados, às 8h30 da manhã, na Band Paraná.
Relações públicas, escritora e autora do livro Crônicas de Diane Leite, disponível na Amazon.com.br.
Criadora da coleção de textos inspiradores publicada no site Pensador.com.
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YouTube: Diane Leite Inspira
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