Quando comer machuca: a dor invisível da seletividade alimentar em crianças atípicas

Por Diane Leite

Desde bebê, meu filho — autista e com superdotação — transformava a hora da alimentação em um campo de batalha. Mas o inimigo não era a comida. O inimigo era a dor. Uma dor que atravessava o corpo inteiro: começava na língua, invadia o cérebro e descia até a alma.

A carne vermelha, por exemplo, ele nunca conseguiu tolerar. Separava com a língua, cuspia, chorava. A textura era invasiva, agressiva, insuportável. Mastigar era uma tortura sensorial. E, muitas vezes, o fim da refeição era o vômito.

Com o passar do tempo, ele recusou qualquer tipo de carne por razões éticas, desenvolvendo um hiperfoco apaixonado em proteger os animais. Após muito diálogo, conseguimos, por orientação médica, inserir peixes e frutos do mar — alimentos que ele aceita por não gerarem dor nem culpa. Mas esse processo exigiu paciência, escuta e respeito.

Já o meu filho mais novo, também autista, enfrenta outro tipo de seletividade alimentar: ele não come nada com caldo. Molhos, sopas, feijão — qualquer alimento que contenha líquido é recusado. Tudo precisa ser seco, crocante. Caso contrário, é crise. É desespero. É sufoco.


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Dor física e dor emocional: uma dupla invisível

Agora, imagine essa criança indo a um restaurante.
Imagine os olhares tortos, os cochichos, os julgamentos.
Imagine alguém dizendo, sem filtro: “Esse menino é fresco demais” ou “Isso é culpa da mãe, que não sabe impor limites”.

A dor da comida é uma.
A dor da exclusão é outra.
E ambas ferem. Profundamente.

Você não vê os espinhos. Mas eles estão lá.
Você não ouve o grito. Mas ele acontece — por dentro.
Você não sente o enjoo, o pânico, o nó na garganta.
Mas essa criança sente. E sofre.
Porque isso não é escolha. É neurologia.




Seletividade alimentar: o que diz a ciência

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 70% e 90% das crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam seletividade alimentar moderada a grave.

Um estudo de Bandini et al. (2010), publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders, evidenciou que esse comportamento alimentar está diretamente relacionado ao funcionamento neurológico e sensorial do autista, e não a fatores comportamentais ou de “mimo”.



O cérebro sensorial e sua relação com a comida

A teoria do processamento sensorial, criada pela terapeuta ocupacional Jean Ayres nos anos 1970, ajuda a compreender por que tantas crianças com autismo têm dificuldades alimentares.

Pessoas com TEA podem ter hipersensibilidade sensorial, o que significa que sentem estímulos de forma amplificada: a textura da comida pode parecer uma lixa na boca, o cheiro pode provocar náuseas, a cor pode gerar ansiedade. Outras crianças podem apresentar hipossensibilidade e não perceber estímulos com intensidade suficiente, precisando de sabores e texturas muito específicas para processar o alimento.

O resultado? Sofrimento real.
Não é frescura. É neurociência.


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Como ajudar: profissionais capacitados e escuta ativa

A conduta indicada nesses casos é sempre buscar uma equipe multidisciplinar. O profissional de referência para seletividade alimentar é o terapeuta ocupacional (T.O.) com especialização em integração sensorial. Fonoaudiólogos, nutricionistas e psicólogos também são fundamentais para acompanhar o desenvolvimento da criança, desde que sem imposição, sem traumas e sem violência emocional.


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Seletividade alimentar não é exclusividade do TEA

É importante lembrar que nem toda seletividade está ligada ao autismo. Existem muitas crianças neurotípicas — ou seja, que não estão no espectro — que também apresentam aversão a certos alimentos, muitas vezes por questões sensoriais isoladas, traumas ou aspectos emocionais.

Portanto, o respeito deve se estender a toda e qualquer infância.


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Julgar uma criança pode causar um trauma irreparável

É preciso fazer um alerta urgente à sociedade.
Toda vez que alguém aponta o dedo e diz:

“Essa criança é mimada.”
“Isso é culpa dos pais.”
“Na minha época, comia ou apanhava!”

Está, sem saber, causando dois tipos de dor:
— A dor física, por forçar o corpo a ingerir algo que ele rejeita.
— E a dor emocional, ao invalidar o que a criança sente.

Isso não é educação. É violência emocional.


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Respeito: o mínimo que uma mãe e uma criança precisam

Se você não entende, tudo bem.
Mas respeite.

Se nunca ouviu falar em seletividade alimentar, aprenda.
Se desconhece o que são distúrbios sensoriais, pesquise.
Se não tem um filho com TEA, ouça quem tem.

Mas, por favor, não critique uma mãe que tenta decifrar todos os dias os códigos únicos do cérebro do próprio filho.


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Porque toda criança merece ser amada exatamente como é

E você? Está disposto a amar uma criança sem tentar consertá-la?
Porque talvez ela não esteja quebrada.
Talvez só precise que o mundo aprenda a vê-la com o respeito que ela merece.



Diane Leite é jornalista, escritora, mãe de dois filhos atípicos e ativista pela consciência neurodivergente. Produz conteúdos voltados à saúde emocional, educação inclusiva e expansão da consciência.

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